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segunda-feira, 25 de maio de 2009

De Humani Corporis Fabrica: um atlas de anatomia de 1543

O livro De Humani Corporis Fabrica Libri Septem (Da Organização do Corpo Humano), é um atlas de anatomia, resultado do trabalho de Andrea Vesalius (Bruxelas, 1514-1564). Publicado originalmente em 1543, é uma relíquia lendária para colecionadores e especialistas. Excomungado em sua época, perdeu-se durante séculos, reaparecendo editado em inglês somente em 1930.


É considerado um dos mais influentes livros científicos de todos os tempos. Foi a primeira obra a ilustrar, em planos e posições perfeccionistas, as diferentes partes do corpo humano em sua aparência e estrutura. Os estudos nele reunidos são modelo de metodologia científica e registro historiográfico.


Vesalius, contemporâneo de Leonardo da Vinci e Michelangelo, passou para a história como o fundador da anatomia moderna. Foi pioneiro em seus estudos e na sua forma de ensinar: dissecando cadáveres humanos, que buscava em cemitérios, estabelecendo a observação direta dos fenômenos como base para a ciência.


O livro

O livro é composto por cerca de setecentas páginas de fina impressão e é dividido em sete partes, ou sete "livros":
  • Livro I - dos ossos e das juntas, incluindo ilustrações dos crânios das cinco diferentes raças humanas, o que o torna o primeiro estudo de etnografia comparada;


  • Livro II - dos músculos, possui as ilustrações mais famosas do livro;


  • Livro III - coração e os vasos sanguíneos;

  • Livro IV - apresentação do Sistema Nervoso;


Livro V - órgãos abdominais;

  • Livro VI - órgãos da região do tórax, incluindo uma observação de Vesalius sobre a semelhança do coração com um músculo;


Livro VII - cérebro.

O De Humani Corporis Fabrica também apresenta o melhor da xilogravura produzida nos últimos séculos. São mais de 200 gravuras, nas quais se pode reconhecer, juntamente com as anotações de Vesalius, a perfeição plástica e o entusiasmo com que o renascentista desvendou o corpo humano no obscurantismo da Era Medieval, suplantando tabus e dogmas religiosos.


As inovações editoriais do Fabrica

A contribuição desta obra para a história do livro é notável. A obra é um inigualável trabalho de diagramação e arte descritiva.
Junto com o desenhista Jan Stephen van Calcar, discípulo de Ticiano, e o impressor Johannes Oporinus, Vesalius criou técnicas como as hachuras e retículas – pontilhados e traços paralelos, oblíquos ou cruzados. Esses recursos são usados ainda hoje em sombreamentos, detalhes e texturas.
A combinação de forma, tipografia e ilustração, representa um todo inseparável de precisão em referências cruzadas que condicionaram, nos séculos seguintes, as práticas de impressão, linguagem e leitura.


Fabrica x Bíblia de Gutenberg

A “Bíblia de Gutenberg” (1450), é considerada a primeira obra encadernada, impressa sobre papel e em série. Sua impressão reunia manchas gráficas ordenadas em páginas com duas colunas de texto, cada uma com 42 linhas simétricas e paralelas. Suas páginas podiam ser vendidas separadas, sem encadernação e sem ilustrações, de acordo com gostos e/ou posses de seus privilegiados donos.
Impresso 53 anos depois da “Bíblia de 42 linhas”, a “Fabrica” Vesalius utilizou a ilustração para eliminar ambigüidades e delimitar aspectos da exposição verbal. Na obra, o leitor encontra evidências de um diálogo esclarecedor e extremamente inovador na composição das palavras com as gravuras.


O De Humani Corporis Fabrica é referência obrigatória na história da arte, da medicina, da anatomia, da impressão, da linguagem e da metodologia científica.

Veja também em
Mol-TaGGe: Encontro entre Arte, Medicina e Morte ou Dissecando uma pintura de Rembrant

Fontes:
Jornal O Tempo. Caderno Cultura. A descoberta do corpo. José Antônio Orlando, 13/9/2003.
Wikipédia

Imagens:
Turning the Pages

Links interessantes:
History of Medicine - National Library of Medicine of the United States
Fundação Oswaldo Cruz
Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Santos
Casa de Oswaldo Cruz
Academia Nacional de Medicina
Acta Medica Misericordiae - Revista Mundial das Santas Casas de Misericórdia
Biblioteca Nacional de Medicina
Sociedade Brasileira de História da Medicina
Revista da Associação Médica Brasileira
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Bíblia não foi o 1º livro impresso no mundo

Poucos sabem que o primeiro livro impresso no mundo com tipos móveis metálicos, técnica supostamente inventada por Gutemberg, foi impresso na Coreia e é oitenta anos anterior à impressão da Bíblia.

Em julho de 1377, os religiosos Seokcan e Daldam utilizaram tipos móveis metálicos para imprimir o Jikji, um trabalho do monge coreano Beagun Hawsang, que, em 1372, compilou, em dois volumes, os ensinamentos essenciais do "Seon" – nome coreano para o Zen Budismo. Este seria então o mais antigo exemplar de um livro produzido com tipos móveis.

Caixa, restaurada, dos tipos móveis usados na impressão do Jikji

O livro foi adicionado ao programa Memória do Mundo, em 2001, pela Coreia, com a seguinte descrição: “Memória do Mundo > registro Patrimônio> Baegun hwasang chorok Buljo Jikji Simche Yojeol (vol.II)”, ou simplesmente Buljo Jikji Simche Yojeol, ou Jikji.

O interior das páginas do Jikji

Alguns esclarecimentos necessários:
  • o programa Memória do Mundo, foi criado pela Unesco, em 1992. O programa objetiva preservar e proteger o patrimônio documental do mundo e garantir o acesso permanentemente, e sem entraves, a todos;
  • Jikji é a abreviatura de um documento coreano budista, cujo título completo pode ser traduzido como "Antologia dos Grandes Sacerdotes Budistas’ Zen Ensinamentos", ou "Ensinamentos de Buda sobre a identificação do Espírito pela prática de Seon".
O volume do Jikji que sobreviveu foi preservado na Biblioteca Nacional da França e contém apenas 38 páginas, enquanto a versão completa dos 307 capítulos da Antologia é preservada em uma impressão em madeira na Biblioteca Nacional da Coreia.

A obra foi impressa no antigo templo Heungdeok-as, da cidade de Cheongju, com fundos doados pela sacerdotisa Myodeok. A impressão, feita com tipos metálicos móveis, só surgiu na Europa quase oitenta depois, quando Gutemberg imprimiu a Bíblia (1455), um trabalho que o inventor havia iniciado em 1450.


A capa e a última página do Jikji

A técnica dos tipos metálicos móveis permaneceu inalterada pelo menos durante os 430 anos posteriores à impressão coreana. Acredita-se que a técnica tenha sido usada antes de 1377, mas, se o foi, os trabalhos se perderam.

Os tipos móveis definidos para a impressão da última página do Jikji,
como restaurada por O Guk-Jin

O Jikji esteve na posse de Collin Plancy, encarregado de negócios da embaixada francesa em Seul, até 1887, quando foi vendida em um leilão em Paris, em 1911, adquirida por Henri Vever. Quando Vever morreu, em 1950, a obra foi doada à Biblioteca Nacional da França, onde atualmente se encontra.

Observações:
  • fotos relacionadas à nomeação da República da Coreia – “Baegun hwasang chorok buljo jikji simche yojeol (vol. II), o segundo volume da ‘Antologia dos Grandes Sacerdotes budistas' Zen Ensinamentos’" –, junto ao programa Memória do Mundo;
  • A história completa do Jikji pode ser vista no site Jikji World

Fontes:
Unesco1
Unesco2
Wikipédia (EN)
Wikipédia (PT)

Imagens:
Unesco3
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quinta-feira, 23 de abril de 2009

A história do Livro: das tabuletas ao Livro digital

- Em seu “Dia Mundial”, Livro tem inicial maiúscula -

Tudo começou em tabuletas de argila ou pedra.

Selo cilíndrico usado nos primeiros documentos escritos da Mesopotâmia, no século 23 a.C.

Através dos escribas (egípcios) ou libraii (romanos), surge o papiro, feito com películas da parte exterior da haste da planta de mesmo nome. O papiro, enrolado em um cilindro, era denominado volumen e quando continha mais de uma obra, denominava-se tomo.

Papiro egípcio

O pergaminho (nome derivado de Pérgamo, cidade da Ásia menor), excerto de couro de animais, substituiu o papiro. Com o pergaminho, a costura passou a ser a nova forma de colecionar os escritos, agora em uma compilação de páginas e não de rolos. Assim, o volumem passa a ser denominado Códex (ou Códice).

Códex Manesse - Ulrich von Singenberg

O Códex dá identidade ao Livro, transforma-o em um objeto que abriga uma obra escrita. Roma consolida seu uso, através da leitura pública (recitatio) e por lazer (voluptas). Surgem as primeiras livrarias e a figura do editor. O primeiro editor conhecido é Atticus, homem de aguçado senso mercantil.

Na Idade Média, o livro passa a ser, quase exclusivamente, propriedade dos religiosos e é tido com objeto de salvação. Nesta época, surgem os copistas, monges dedicados integralmente a reprodução de obras literárias e os textos didáticos, destinados à formação dos religiosos.

Copista - Idade Média

Ainda na Idade Média, surge o uso de margens, páginas em branco, pontuação, letras maiúsculas, índices, sumários, resumos e a classificação dos livros em gêneros. Além dos didáticos, surgem os florilégios (coletânea de vários autores), os auxiliares e os eróticos. Progressivamente a língua vernacular substitui o latim romano.

O papel começa a substituir o pergaminho.

Já no século XIV, fim da Idade Média (1405), surge, na China, a primeira impressora de tipos móveis, construída por Pi Sheng. Mas foi na Idade Moderna, cinquenta anos após Pi Sheng (1455), que Johannes Gutenberg inventa a impressora com tipos móveis reutilizáveis e imprime o primeiro Livro: a Bíblia.

Página da Bíblia impressa por Gutenberg

Com o surgimento da impressora, o Livro se populariza. A antiga caligrafia, denominada Carolíngea, é relegada ao ostracismo e surge o projeto tipográfico, o que hoje denominamos design gráfico, ou design editorial. Os Livros passam a ser portáteis e aparecem novos gêneros, como o romance, novela e almanaque.

Na Idade Contemporânea surgem as informações não lineares, através dos jornais, revistas, enciclopédias. Novas mídias trazem novos formatos, os sonoros, o imagético (fotografia) e o misto (cinema e TV).

Agora, final do século XX, início do XXI, assistimos a outra revolução. Com a invenção da Internet, uma nova roupagem é dada aos Livros. Os caracteres eletrônicos substituem a caligrafia; a tela substitui o papel... Será o fim dos Livros como os conhecemos? Serão eles relegados a peças de antiquários, colecionadores, ou a prateleiras empoeiradas das bibliotecas, como hoje o são os antigos Códex? Que futuro terão os Livros?



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