terça-feira, 7 de abril de 2009

"A Lista de Schindler": a lista e a polêmica

Descoberta a lista que deu origem ao filme “A Lista de Schindler”


Quem não se lembra do filme “A Lista de Schindler”, de Spielberg? Foi através do filme que o ato de Schindler se tornou conhecido em todo o mundo. A lista original foi encontrada misturada a notas de pesquisa e recortes do escritor Thomas Keneally, autor do livro “A Arca de Schindler”, lançado no Brasil com o mesmo nome do filme (clique aqui se quiser fazer o download do livro).
Nem o livreiro, que possuía os documentos, nem a biblioteca de Sydney, que os comprou em 1996, sabiam da existência da lista. Keneally recebeu o documento das mãos de um dos integrantes da lista, Leopold Pfefferberg, há aproximadamente 30 anos atrás, para que o escritor publicasse a história.

O polêmico Schindler

Embora o livro e o filme tenham feito sucesso, o segundo bem mais que o primeiro, parece que a história foi bem romanceada, tanto por Keneally, quanto por Spielberg. Schindler, pelo que constatei em minhas pesquisas, não era esse homem abnegado no qual o filme o transforma.

Segundo Siegfried Ellwanger Castan, mais conhecido como S. E. Castan, polêmico revisionista e escritor brasileiro, fundador da Editora Revisão, acusado por algumas instituições de racista, a história é bem diferente:
  • Keneally registrou sua obra como ficção na catalogação bibliográfica brasileira, sob o número 93.480 (página 04, 2ª edição, Record, 1994), isso demonstra que o autor reconhecia sua interferência na história contada;
  • Oskar Schindler não era alemão, era tcheco. Ele nasceu em Zwittau-Brinnlitz, na Morávia, atual República Tcheca, em 28/abr./1908 e faleceu em Hildesheim, Alemanha, em 9/out./1974. Tornou-se membro do Partido Nazista após a anexação dos Sudetos (cadeia de montanhas na fronteira entre a República Checa, Polônia e Alemanha);
  • não era industrial, mas filho de um pequeno e falido industrial;
  • não seguiu os alemães na invasão da Polônia, pois já se encontrava lá desde 1938
  • não era nacional-socialista, apenas usava – por conveniência – um distintivo com a suástica na lapela;
  • era homem de confiança da comunidade judaica de Cracóvia;
  • a fábrica não era sua, mas de um judeu, e não produzia esmaltados, mas material bélico, portanto de interesse militar alemão;
  • a lista foi feita por Schindler, mas aprovada por Marcel Goldberg, um judeu tido como o segundo homem da fábrica, que tinha o poder de incluir ou retirar nomes;
  • não existe certeza no número de judeus “salvos” por Schindler, em sua sepultura, em Jerusalém – onde foi declarado um Justo –, constam 1.200;
  • o maior receio dos judeus eram os poloneses, não os alemães;
David M. Crowe*, em seu livro, escrito após sete anos de pesquisa, “Oskar Schindler – The Untold Account of His Life, Wartime Activities, and the True Story Behind the List”, ainda não traduzido para o português (pelo menos não consegui localizar), também relata que a verdadeira história é bem diferente da mostrada no filme. Segundo ele:
  • não havia uma só lista, mas nove, das quais quatro foram feitas por Marcel Goldberg, membro corrupto do chamado Serviço Judaico de Ordem;
  • Schindler teria, se muito, sugerido alguns poucos nomes, porque inclusive na época estava preso, acusado de tentar subornar o comandante da SS, Amon Göth;
  • a versão de uma única lista foi propagada pelo próprio Schindler depois da guerra.
  • antes de se tornar um “benfeitor”, Schindler teria sido um “’perigoso espião de calibre’, comandante da unidade do serviço secreto que planejou a invasão da Polônia. Crowe destaca que Schindler teria se oposto inicialmente à deportação de judeus também para evitar desfalque no quadro de funcionários de suas fábricas”;
  • Schindler era um oportunista, principalmente quando, após a guerra, usou e abusou de “seus contatos de amizade com judeus para conseguir vantagens econômicas após a guerra".
  • Schindler, o homem, era mulherengo, beberrão e oportunista.
Apesar de achar que os judeus salvos por Schindler tenham uma visão "pragmaticamente romântica" de Schindler, o autor respeita esse julgamento.


Adendo ao caso
Frederico Füllgraf, escritor, roteirista, diretor de cinema e colunista da revista eletrônica “Speculum” e das revistas impressas “Caros Amigos”, “Idéias” e “ETC”, em sua crônica “Emilie Schindler – a crônica que não quer calar”, apresentada na “Speculum”, observa que o papel da esposa de Oskar Schindler foi muito maior que o apresentado no filme. Vai além, relata o descaso de todos para com ela, desde Oskar Schindler (de quem Emille guardava profunda mágoa) a Spielberg. Em sua crônica, Füllgraf define o episódio com o famoso diretor como “um dos mais antiéticos da história de Hollywood”.

“Seu projeto mais importante, porém, o resgate de seu verdadeiro papel histórico na salvação de 1.700 judeus virtualmente condenados à morte, só lentamente emergia das sombras, para as quais ‘historiadores’, políticos e Hollywood a haviam empurrado”.
Entretanto, a própria Emilie resgatou suas memórias através do livro “Eu, Emilie Schindler”, redigido por Erika Rosenberg e lançado internacionalmente na Feira do Livro de Frankfurt de 2001. Parece que, no Brasil, foi lançado como “Memórias - À sombra de Schindler”, mas consegui confirmar esta informação. Não deixe de ler a íntegra da crônica, clique aqui.


* biógrafo, historiador da Universidade de Elon, na Carolina do Norte, uma instituição ligada à United Church of Christ, e membro da comissão de formação do Museu Memorial do Holocausto, em Washington, além de presidente emérito da Associação para o Estudo das Nacionalidades da Universidade da Columbia.

Veja o outro lado da moeda em Leões e Cordeiros.

6 comentários:

Namoro na Boa disse...

Olá Margareth!
Polêmico o assunto. Todos gostariamos de que fossem verdadeiras as informções do filme, até pelo fato humanístico. Cabe a cada um interpretara todas essas contradições para chegar à sua própria conclusão. No momento, após a leitura de seu texto, não tenho opinião formada. Mas vou tentar obter mais dados através de pesquisas. Cismei! rs
Beijo

Beth Cruz disse...

Diante de toda essa polêmica eu fico ainda com o lado humanitário de Schindler. Quando Schindler deixa de lado a ganância de ganhar dinheiro e se sensibiliza e se solidariza pelo sofrimento dos judeus é o momento que apaga todo o oportunismo egoísta de seus atos anteriores.
Se ele fosse apenas um aproveitador ele não teria gasto todo o seu dinheiro subornando a gestapo para livrar crianças, mulheres e homens do holocausto.
Quem derá que Hitler tivesse sido tocado dessa mesma maneira. A história teria sido outra, menos traumatica.
Beijo mineirinha!

Eduardo disse...

Quando assisti "A Lista..." me pareceu muito bem que o Schindler de Spielberg foi um homem com defeitos e qualidades. Na minha opinião, o filme o mostra mulherengo, que traiu a esposa, oportunista, que se aproveitou de amizades nazistas e de trabalho judeu, etc. Mas o que mais me pareceu é que não foi um filme de judeus bons e alemães maus, e sim, como vi num comentário de um crítico, "um filme sobre a natureza humana".

Anônimo disse...

td escrito até então não muda o essencial do filme, não faria diferença de ele fosse brasileiro, ou americano, nem tão pouco, esmaltados ou calibres, é visível no filme a intesão de se usufruir da guerra para ter lucros, enfim.. não tira o brilho nem do filme e nem do que realmente foi feito q é o q ele fez de diferente

EU, UAI disse...

NO FILME É DITO QUE ELE NASCEU NA TCHECOSLOVÁQUIA... --'

Anônimo disse...

Se continuar assim daqui uns anos vão assistir Titanic de James Cameron e ficar pensando que existiu uma Rose e um Jack Dawson, e vai ter na certa algum bobalhão ou bobalhona incautos para repetir como papagaios que existiram mesmo.

 

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